Fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa
A Medicina Tradicional Chinesa (MTC) é tão antiga quanto a humanidade. Pode-se dizer que ela existe desde quando o primeiro homem pressionou e massageou seu corpo instintivamente ao sentir dor.
Prof. Alexander Raspa da Silva
Medicina Tradicional Chinesa
Prof. Alexander Raspa da Silva
Mestre pela Faculdade de Medicina da USP. Doutor Honoris Causa em Medicina Tradicional Chinesa. Cirurgião bucomaxilofacial e fisioterapeuta, especialista em Acupuntura desde 1994. Realizou estudos complementares em Pequim e Xangai, na China. Professor universitário com quase 30 anos de experiência.
Introdução
A Medicina Tradicional Chinesa se baseia em conceitos taoistas e energéticos, os quais enfocam o indivíduo como um todo e como parte integrante do universo. Para ela, o indivíduo é constituído por um conjunto de energias, provenientes do Céu e da Terra, que fluem por todo o corpo e devem estar em constante equilíbrio. Quando isso não ocorre, há a manifestação de patologias.
A terapêutica objetiva restabelecer o fluxo da energia vital pelo organismo e, para isso, lança mão de vários recursos, como a acupuntura, a moxibustão, a farmacopeia, a dietética, o tai chi chuan e o qi gong.
A Medicina Tradicional Chinesa (MTC) é tão antiga quanto a humanidade. Pode-se dizer que ela existe desde quando o primeiro homem pressionou e massageou seu corpo instintivamente ao sentir dor.
Nota Via Cinco: múmia de Bozano, corpo encontrado nos Alpes há algumas décadas, com pelo menos 5.300 anos, exibia marcas de tratamento de acupuntura.
O primeiro nome que a tradição guardou foi Fu Hi (2.953 a.C.), fundador da civilização chinesa, ao qual foi atribuída a invenção da caça e do cozimento dos alimentos. Atribui-se a ele a criação dos oito hexagramas do Livro das Mutações — I Ching.
Seu sucessor foi o Imperador Cheng Nong (2.838 a.C.), que ensinou às pessoas sobre plantas curativas e assinalou as tóxicas.
Os conhecimentos foram transmitidos oralmente até a dinastia Chou (1.122 a 256 a.C.), quando surgiu o Huang Di Nei Jing Su Wen. Não se sabe quem foi seu autor, mas supõe-se que tenha sido escrito por muitos médicos, com autoria atribuída ao lendário Imperador Huang Di. Esse livro contém toda a base filosófica, a ciência do diagnóstico e o tratamento por meio de agulhas e moxa.
Grande parte da MTC se baseia no Nei Jing, obra de grande autoridade pela riqueza de suas observações e ensinamentos sobre a prevenção e o tratamento de doenças. Quase todas as obras posteriores foram inspiradas nesse livro.
As teorias básicas da MTC
Dao ou Tao
Tao é a realidade e a energia primordial do universo, o fundamento do ser e do não ser. Conforme escreveu Chuang Tsé:
“O Tao possui realidade e clareza, mas nenhuma ação ou forma. Pode ser transmitido, mas não recebido. Pode ser atingido, mas não visto. Existe por si e através de si. Existia antes do Céu e da Terra, na verdade, por toda a eternidade. Ele é a razão da divindade dos Deuses e da criação do mundo. Está acima do zênite, mas não lhe é inferior. Embora mais velho do que o mais idoso, não é velho”.
Os chineses acreditavam na existência de uma realidade última, subjacente e unificadora de todas as coisas e fatos observados: o Tao.
O Tao é o processo cósmico no qual todas as coisas estão envolvidas; o mundo é visto como um fluxo contínuo, em permanente mudança.
Existem padrões constantes nessas mudanças, que podem ser observados pelos homens. O sábio reconhece esses padrões e dirige suas ações de acordo com eles. Assim, torna-se “Uno com o Tao”, vivendo em harmonia com a natureza e obtendo sucesso no que realiza.
Lao Tsé ensina que Tao — cujo significado pode ser “caminho” — é apenas um termo aceitável para aquilo que seria melhor chamado de “O Inominado”. Nada lhe pode ser atribuído sem comprometer sua integridade. As palavras limitam, e o Tao não tem limites.
A característica principal do Tao é a natureza cíclica de seu movimento e sua mudança incessante. Todos os acontecimentos da natureza apresentam padrões cíclicos de ida e vinda, expansão e contração.
A ideia de padrões cíclicos no movimento do Tao recebeu uma estrutura precisa com a introdução dos opostos polares Yin e Yang. Todas as manifestações do Tao são geradas pela inter-relação dinâmica dessas duas forças polares.
Energia Qi
Há milênios foi desenvolvido no Oriente um sistema filosófico, cultural, religioso e científico que relaciona uma energia a todas as coisas e, especialmente, aos seres vivos. Essa energia é conhecida como Ki, no Japão; Qi, na China; Prana, na Índia; e, atualmente, bioenergia, no Ocidente.
Os orientalistas que se referem aos escritos cosmológicos e filosóficos traduzem Qi como “sopro” — o sopro original que originou Yin e Yang —, mas os acupunturistas preferem utilizar a palavra “energia”.
Qi dá origem ao Céu e à Terra: os sopros ligeiros, mais Yang, sobem e formam o Céu, enquanto os sopros pesados, mais Yin, descem e formam a Terra. Entre o Céu e a Terra encontra-se o homem — e todas as manifestações de vida —, com energia própria e submetido às leis do Céu e da Terra.
Os tipos de energia (Qi)
Apesar de a energia Qi ser única, ela pode ser classificada em três tipos, segundo suas funções:
A energia ancestral, ou Yuan Qi, nasce da união do óvulo com o espermatozoide e traz o código genético para cada ser. Ela decresce durante a vida, e seu esgotamento é responsável pela morte não acidental.
Yuan Qi encontra-se principalmente na região inferior do abdome, estando presente também em todas as células do corpo.
Após o nascimento, a energia ancestral ainda precisa ser completada pelo Qi da nutrição.
A energia da alimentação, Yong Qi, é a energia essencial proveniente do ar — Yeung Chi — e dos alimentos — Kou Chi.
A energia defensiva, ou Wei Chi, é responsável pela proteção e defesa do organismo, ou seja, pela imunidade.
Nota Via Cinco: as três partes do Lian Gong Shi Ba Fa, Treinamento Perfumado 1 e 2, Harmonização dos Sopros, Percussão e Prática Matinal atuam direta ou indiretamente para o benefício do organismo nesses três tipos de energia.
O Triplo Aquecedor
O Triplo Aquecedor (T.A.) ou Triplo Reaquecedor (T.R.) é conhecido também como três fornalhas, três queimadores e três sedes de energia.
Quanto ao T.A., deve-se entendê-lo como uma função tripla, que inclui os sistemas respiratório, digestivo e geniturinário.
O T.A. tem por função manter a vida pela integração, ao corpo humano, da energia absorvida do ar e dos alimentos.
O Yuan Qi passa pelo T.A. e, em cada nível — superior, médio e inferior —, atravessa as vísceras (Zang Fú), provocando a atividade funcional de cada uma delas. Desse modo, permite a digestão, a assimilação, a distribuição e a excreção das águas e dos alimentos.
A sede superior situa-se no tórax, acima do diafragma, e é responsável por assimilar a energia do ar. A sede média situa-se entre o diafragma e o umbigo; sua função é produzir energia a partir da absorção dos alimentos e eliminar os resíduos da digestão para a sede inferior. A sede inferior situa-se entre o umbigo e o púbis, sendo também conhecida como campo de cinábrio. É responsável pela reprodução, pela eliminação de resíduos e pela elaboração da energia defensiva Wei, além de conter a energia ancestral.
As energias perversas
Cada estação do ano tem uma energia própria, que a caracteriza e atua predominantemente em determinadas funções:
- Verão: calor;
- Quinta estação: umidade;
- Outono: secura;
- Inverno: frio;
- Primavera: vento.
Sendo normais em suas respectivas estações, essas energias são consideradas “perversas” quando se manifestam em outra época do ano, pois afetam negativamente as funções orgânicas. Quando a energia defensiva não está forte, podem provocar fenômenos Yang — excesso — quando atuam além de sua estação, e fenômenos Yin — insuficiência — quando aparecem atrasadas.
Nota Via Cinco: além da origem climática do termo, incluem-se no campo das energias perversas as emoções não harmoniosas, quando presentes por tempo demasiado, bem como a alimentação frequentemente insalubre.
Teoria do Yin-Yang
A partir de uma energia única, há uma diferenciação em duas energias: Yin e Yang, que são ao mesmo tempo opostas e complementares.
Assim, o capítulo 42 do Tao Te Ching descreve a criação do mundo:
O Tao deu origem a um
Um deu origem a dois
Dois deram origem a três
Três deram origem aos 10.000 seres
Os 10.000 seres carregam o Yin nas costas e abraçam o Yang.
O significado original das palavras Yin e Yang correspondia, respectivamente, aos lados ensolarado e sombreado de uma montanha.
Todos os fenômenos da natureza são constituídos pelo movimento e pela transformação dos dois aspectos opostos do Yin e do Yang, como dia e noite, claro e escuro, calor e frio, atividade e repouso.
A teoria do Yin e Yang classifica fenômenos e manifestações segundo diversos critérios.
- Conforme os caracteres físicos
Tudo o que é animado, está em movimento, é exterior, ascendente, quente, luminoso e funcional — tudo o que corresponde à ação — é Yang.
Tudo o que está em repouso, é tranquilo, interior, descendente, frio, sombrio e material — tudo o que corresponde a uma substância ou matéria — é Yin.
- Conforme a natureza da manifestação
O Céu está no alto, portanto é Yang; a Terra, por estar embaixo, é Yin.
A água é de natureza fria e escorre: é Yin. O fogo é de natureza quente e suas chamas se elevam: é Yang.
- Conforme as transformações
Em princípio, o Yang transforma-se em Qi, e o Yin torna-se forma e matéria.
O pertencimento a Yin ou Yang é relativo, pois Yin pode transformar-se em Yang, e vice-versa. Além disso, todos os fenômenos podem se fragmentar em partes Yin e Yang. Por exemplo: o dia é Yang, mas a manhã é Yang dentro de Yang, e a tarde é Yin dentro de Yang.
Quando aplicada ao corpo humano, a teoria Yin-Yang diferencia órgãos (Zang) e vísceras (Fú): os primeiros apresentam características Yin e as segundas, características Yang.
Segundo George Soulié de Mourant, as vísceras (Fú), cujo ideograma chinês denota a ideia de “talher”, recebem essa denominação porque transformam em energia e sangue os materiais recebidos do exterior. Por estarem em relação com o exterior e fabricarem energia, caracterizam-se como Yang. Já os órgãos (Zang), cujo ideograma representa “tesouro”, presidem a purificação e a circulação do sangue; apresentam características Yin por controlarem a vida interna e o sangue.
Os órgãos são representados pelo pulmão, coração, fígado, baço-pâncreas, rim e circulação-sexualidade — que não é um órgão real, mas uma função que controla todas as energias Yin, além das funções circulatórias e geniturinárias.
As vísceras (Fú) são: estômago, intestino delgado, intestino grosso, vesícula biliar, rim e triplo aquecedor.
Entendendo-se que a doença é resultado do desequilíbrio Yin-Yang, os métodos de acupuntura devem visar ao restabelecimento do equilíbrio entre os dois elementos.
As doenças com características Yang são agitadas, fortes, quentes, secas, hiperfuncionantes e agudas. As que possuem características Yin são calmas, fracas, frias, úmidas, hipofuncionantes e crônicas.
Teoria dos Cinco Elementos
Essa teoria considera que a natureza é constituída de cinco elementos básicos: madeira, fogo, terra, metal e água. Entre eles existe uma relação de interdependência e inter-restrição, que gera um estado de constante movimento e mutação.
Os elementos geram-se mutuamente na seguinte ordem: a madeira gera o fogo; o fogo gera a terra — pois sua combustão produz cinzas; a terra gera o metal — pois os metais nascem na terra; o metal gera água — quando se liquefaz; a água gera a madeira — pois a nutre; e a madeira gera o fogo — ao se queimar —, fechando o ciclo.
Ao elemento gerador denominamos “elemento mãe”, e ao elemento gerado, “elemento filho”. Por exemplo: a madeira é filha da água e mãe do fogo.
Esse movimento constante de geração levaria o universo a um desequilíbrio. Para frear esse processo, atua simultaneamente a lei da dominância:
- A madeira domina a terra;
- A terra domina a água;
- A água domina o fogo;
- O fogo domina o metal;
- O metal domina a madeira.
Em certos casos, pode aparecer o fenômeno da contra-dominância, no qual o dominado passa a dominar por deficiência do dominante ou, ainda, por excesso do dominado, o dominante passa a ser inibido.
Qualquer fenômeno, objeto ou manifestação existente na natureza pode ser relacionado a um desses elementos. Assim, por exemplo, as estações, as cores, os tons musicais, os órgãos, os sabores e outros aspectos.
Há mais de 2.600 anos, já havia descrições da classificação dos órgãos segundo os cinco elementos, no Livro de Ouro do Imperador Amarelo.
Assim, o fígado pertence ao elemento madeira; o coração, ao fogo; o baço-pâncreas, à terra; o pulmão, ao metal; e os rins, à água. Desse modo, o Qi dos rins alimenta o fígado — madeira —; este estoca sangue para ajudar o coração — fogo —; o calor do coração aquece o baço-pâncreas, que transforma a essência dos alimentos e preenche o pulmão — metal. O pulmão purifica, auxiliando os rins — água.
Os estados psíquicos também estão associados aos cinco elementos: a cólera — raiva — ao elemento madeira; a alegria, ao fogo; a reflexão, ao baço; a tristeza, ao pulmão; e o medo, aos rins.
Teoria dos Meridianos
Cada função possui, na superfície do corpo, uma série de pontos que, ligados entre si, constituem os meridianos.
O ideograma utilizado desde a antiguidade para designar essas linhas de pontos é composto por elementos que remetem à ideia de alinhamento e pronuncia-se “Tsing”.
George Soulié de Mourant cita, em seu livro, as seguintes observações clínicas:
“Quando um órgão está alterado, existe uma série de pontos que se tornam sensíveis e formam uma linha.”
“Em pessoas sensíveis, as linhas dos meridianos são dolorosas.”
“Muitos doentes, no momento da picada da agulha, referem sentir uma sensação que segue uma linha e que coincide com o trajeto do meridiano do ponto que fora picado.”
Os meridianos principais são em número de doze. São bilaterais e correspondem às funções dos seis órgãos (Zang) e das seis vísceras (Fú).
Para cada membro superior existem três meridianos principais de natureza Yin e três de natureza Yang. O mesmo ocorre em relação aos membros inferiores:
- Três meridianos Yin do membro inferior: baço-pâncreas, fígado e rim;
- Três meridianos Yang do membro inferior: estômago, bexiga e vesícula biliar;
- Três meridianos Yin do membro superior: pulmão, circulação-sexo-pericárdio e coração;
- Três meridianos Yang do membro superior: intestino grosso, intestino delgado e triplo aquecedor.
Além dos meridianos principais, o corpo humano possui outras vias que não apenas os ligam a várias partes do corpo, como também cobrem as áreas externas e internas por onde circulam as energias. São conhecidos como meridianos secundários e dividem-se em quatro tipos.
- Meridianos extraordinários ou curiosos
Esses meridianos são assim chamados porque não têm comunicações especiais com as vísceras. Além disso, não há correspondência nem reunião entre eles. Diferem, portanto, dos meridianos regulares, que se cruzam e lhes cedem pontos.
Estão agrupados em quatro meridianos Yang:
- Du Mai;
- Dai Mai;
- Yang Qiao Mai;
- Yang Wei Mai.
E quatro meridianos Yin:
- Ren Mai;
- Chong Mai;
- Yin Qiao Mai;
- Yin Wei Mai.
Sua principal função é reforçar os liames entre os meridianos regulares, a fim de regularizar o Qi e o sangue. O excesso presente nos 12 meridianos principais escoa e concentra-se nos oito meridianos extraordinários, onde é guardado como reserva para ser distribuído quando há insuficiência de Qi e sangue nos Jing Mai.
Cada meridiano extraordinário — também chamado de “Vaso Maravilhoso” — possui um ponto de comando situado em um meridiano principal. Com exceção de Ren Mai e Du Mai, os meridianos extraordinários não possuem pontos próprios; seus trajetos são constituídos por pontos dos meridianos principais.
Os quatro vasos Yang atuam sobre doenças externas, enquanto os quatro vasos Yin atuam sobre doenças internas. Seus pontos de comando servem para abrir um tratamento conforme a sintomatologia:
- Du Mai — “Vaso Governador” (ID 3): nevralgias, distúrbios motores das extremidades, contraturas da nuca ou dos maxilares, tétano, olhos vermelhos, amigdalite, bruxismo, tosse com catarro e surdez;
- Yang Qiao Mai (B 62): contraturas em geral, hemiplegia, paralisia, afasia, dores da nuca e das costas e lumbago;
- Yang Wei Mai (TR 5): esgotamento, expectoração de sangue, dores de cabeça, doenças dos olhos e ouvidos, dor e edema do pescoço e da nuca, gânglios na nuca, abscessos na boca, dores nos molares inferiores e artrite dos dedos ou artelhos;
- Dai Mai (VB 41): insuficiências e esgotamentos, reumatismo articular agudo, artrite do calcanhar, vermelhidão e edema nos pulsos, joelhos ou maléolos externos, paralisia flácida, tremores, contraturas dos pés e mãos, dores nas costas, ombros, braços ou membros inferiores;
- Yin Wei Mai (CS 6): amnésia, fuga das palavras, ansiedade, distúrbios do cérebro, riso desordenado, epilepsia, indigestão, plenitudes internas, constipação espasmódica e hemorroidas;
- Chong Mai (BP 4): dores precordiais, dor de estômago, aerogastria, aerocolia, soluços, febres palustres e icterícia;
- Ren Mai — “Vaso da Concepção” (P 7): doenças das vias respiratórias, coriza, espirros, bronquite, asma, ondas de calor, meningite nas crianças, diabetes, intoxicações alimentares e medo nas crianças;
- Yin Qiao Mai (R 6): espasmo da bexiga, urina espessa ou sanguinolenta, micção frequente, constipação nas mulheres, perda seminal, esgotamento em idosos e mulheres, aborto espontâneo, intoxicação nas mulheres, dores no ventre pós-parto e metrite.
- Meridianos distintos — Jing Bie
São em número de 12, partem dos 12 meridianos principais e dependem deles. Têm como ação importante ligar os meridianos principais aos órgãos internos.
- Meridianos de ligação — Luo Mai
Dividem-se em dois tipos:
- Ramificações mais grossas: há, no total, 15 Bie Luo — os 12 meridianos principais, os meridianos Du Mai e Ren Mai e o grande Luo do baço. O Bie Luo liga um meridiano Yin a um meridiano Yang;
- Circulação superficial: utiliza ramificações cada vez menores dos Luo, chamadas Fu Luo e Yun Luo. (Auteroche e Navailh, 1986.)
- Meridianos tendinomusculares
Sua função principal é proteger o corpo das influências externas. Possuem a energia defensiva, que circula nos meridianos Yang durante o dia e nos meridianos Yin durante a noite, obedecendo à seguinte ordem:
B — VB — E — ID — TR — IG — BP — F — R — P — CS — C
As principais afecções provenientes do comprometimento desses meridianos incluem:
- Reumatismo agudo, algias e contraturas;
- Contusões e lesões musculares ou ligamentares;
- Neurites, mialgias e tendinites;
- Afecções cutâneas;
- Afecções cefálicas, como nevralgias, paresias ou paralisias faciais, tiques nervosos, rinites, sinusites, conjuntivites, afonia e catarros.
Sintomatologia:
- Plenitude: hipersensibilidade, dor espontânea ou à palpação superficial, rubor, calor, espasmos, contrações, edemas e formigamento;
- Insuficiência ou vazio: hipossensibilidade, frio, paresia ou paralisia motora, palidez dos tegumentos, atonia ou atrofia muscular e dor à palpação profunda.
A circulação energética nos meridianos
A energia, após sua elaboração pelas três sedes do Triplo Aquecedor, surge no circuito dos meridianos ao nível dos pulmões e segue o seguinte trajeto:
Pulmões → Intestino Grosso → Estômago → Baço-Pâncreas → Coração → Intestino Delgado → Bexiga → Rim → Circulação-Sexo → Triplo Aquecedor → Vesícula Biliar → Fígado.
Esse trajeto é percorrido em 24 horas, com permanência de duas horas em cada meridiano.
Paralelamente, ocorre uma segunda circulação. Ela inicia-se às 3 horas da manhã, ao nível do pulmão, e continua nos meridianos Du Mai e Ren Mai, onde também circula durante 24 horas.
Ao estudar e observar o funcionamento dos meridianos e órgãos, verificou-se que eles apresentam aumento de atividade durante duas horas por dia, algo que pode ser observado pelo exame do pulso radial.
Horários de maior atividade:
- Pulmões: das 3h às 5h;
- Intestino grosso: das 5h às 7h;
- Estômago: das 7h às 9h;
- Baço-pâncreas: das 9h às 11h;
- Coração: das 11h às 13h;
- Intestino delgado: das 13h às 15h;
- Bexiga: das 15h às 17h;
- Rim: das 17h às 19h;
- Circulação-sexo: das 19h às 21h;
- Triplo aquecedor: das 21h às 23h;
- Vesícula biliar: das 23h à 1h;
- Fígado: da 1h às 3h.
É interessante observar que pacientes hepáticos e asmáticos com problemas de fígado têm seus piores períodos entre 1h e 3h da manhã. Para os cardiopatas, esse período ocorre aproximadamente ao meio-dia.
Acupontos
O termo tradicional chinês que designa o ponto de acupuntura é Xué Dáo. Xué significa caverna, fossa ou depressão; Dáo significa via, energia espiritual ou cósmica. Assim, Xué Dáo significa a “caverna do Dáo”.
Outro sinônimo para o acuponto é Qi Xué, ou seja, o ponto da energia vital, onde “mora o Qi”.
Por meio do ponto ocorrem mudanças, transformações e trocas energéticas entre o homem, o Céu e a Terra. O dicionário da Medicina Tradicional Chinesa conceitua o acuponto da seguinte maneira:
“São pontos situados na superfície do corpo onde o Qi dos órgãos internos e dos meridianos fluem.”
Esse conceito é complementado em outro capítulo, pelo termo Dao Qi:
“Através da interconexão fisiológica entre órgãos e canais, mudanças patológicas dos órgãos podem se refletir nos pontos. Estes sítios de estimulação regulam o equilíbrio do Qi — Yin/Yang — e sangue — Xué —, desobstruem os canais, eliminam fatores patógenos — ditos energia perversa ou xié —, reforçam a resistência orgânica e regulam a insuficiência — Xu — e os excessos — Shi.”
Soulié de Mourant cita alguns fatos observados:
- Alterações orgânicas ou funcionais despertam, em certos pontos da pele, uma sensibilidade dolorosa, que deixa de existir quando a patologia se resolve. Esses pontos são sempre os mesmos para cada moléstia;
- Esses mesmos pontos, quando estimulados — via agulhas ou não —, proporcionam um retorno à normalidade, temporária ou definitiva, do funcionamento do órgão correspondente.
O ponto de acupuntura apresenta ação local — na área próxima ao acuponto —, ação à distância — sobre órgãos internos e no meridiano correspondente — e ação no psiquismo.
Métodos utilizados pela MTC
A acupuntura
A palavra “acupuntura”, introduzida no Ocidente pelos jesuítas ao retornarem da China, provém do latim: acussignifica agulha e punctura, picar.
Consiste, portanto, na inserção de agulhas em pontos especiais da pele, a fim de se obter uma resposta terapêutica determinada.
Os chineses denominam esse método de Zhen Jiu, que significa “agulha e fogo”, ou seja, o uso de um recurso térmico, além da agulha, para estimular os pontos. Atualmente, fala-se em moxabustão, que consiste na combustão de uma pequena quantidade de pó de Artemisia vulgaris ou Artemisia sinensis.
As agulhas
Na Idade da Pedra, espinhos de madeira, lascas de ossos ou sílex afiados eram utilizados para puncionar, retirar o pus de abscessos ou realizar sangrias. Segundo a tradição, as primeiras agulhas vinham do mar oriental e eram de pedra, longas e arredondadas. Após 45 séculos, foram substituídas por agulhas de metal.
O Imperador Huang Ti ordenou o emprego de agulhas metálicas, substituindo os estiletes e as agulhas de jade.
Os diferentes tipos de agulhas resultavam da necessidade de estímulos distintos, seja em função da profundidade de inserção, seja pelos efeitos desejados. De maneira geral, há três níveis de profundidade:
- Superficial: atinge a energia defensiva Oé e corresponde ao Céu;
- Médio: relativo ao homem, é o nível de síntese em que se aumenta ou diminui a energia da função;
- Profundo: atinge a energia nutridora Yong.
Moxabustão
Moxabustão é a denominação dada à combustão de uma pequena quantidade de pó de Artemisia vulgaris ou Artemisia sinensis, como forma de estímulo no ponto de acupuntura.
Segundo o Nei Jing:
“Em todas as afecções em que a acupuntura é contraindicada, é preciso usar moxas. A artemísia tem o poder de extrair a energia Yang do Yin.”
As principais indicações para o uso da moxa são crianças, idosos e pessoas muito enfraquecidas ou magras.
As moxas podem ser usadas de duas maneiras: diretamente sobre o ponto ou indiretamente, colocando-se uma camada de gengibre, sal ou alho entre a pele e a moxa.
Para prepará-la, faz-se um pequeno cone com o pó de artemísia, amassado com os dedos, e o coloca sobre o acuponto previamente umedecido com uma gota d’água, para melhor fixação. Em seguida, acende-se o cone.
Quando a combustão se aproxima da base, o paciente percebe o ardor e informa o acupunturista. No Ocidente, evita-se provocar queimaduras, retirando-se a moxa quando se inicia uma sensação de calor intenso. No Oriente, porém, geralmente não é dada muita importância a esse fato, o que pode provocar cauterização do ponto.
Para tonificar um ponto, deixa-se a artemísia queimar e, depois, massageia-se o ponto com o dedo. Para obter sedação, sopra-se o fogo, para que a moxa queime rapidamente. Em relação ao número de aplicações por sessão, de três a quatro sedam, e de sete a dez tonificam.
Tai Chi Chuan
A expressão Tai Chi Chuan, ou Tai Ji Quan, significa literalmente “boxe da suprema cumeeira”. (Despeaux, 1981.)
O Tai Chi Chuan é uma expressão corporal e uma arte marcial derivada do pensamento do Tao. Seu trabalho interior e energético baseia-se nos conceitos e técnicas da alquimia interna taoista — Nei Tan. (Cheng, 1989.)
O Tai Chi Chuan baseia-se na meditação taoista e no I Ching, o Livro das Mutações.
“É dizer que Lao Tsé e Confúcio deram as mãos.”
— Severino, 1988.
Definido modernamente como “a arte da meditação em movimento”, seus movimentos flexíveis e lentos promovem a harmonização das energias Yin e Yang pela coordenação entre a consciência do movimento e a respiração. Também liberam tensões corporais, com efeitos sobre a saúde física e mental. (Despeaux, 1981.)
Os movimentos do Tai Chi Chuan têm o círculo como base e o Yin-Yang como princípio. Em todo movimento, a alternância entre Yin e Yang forma um círculo. Durante a prática, as mãos são a parte do corpo que mais descreve círculos, ideia também presente no deslocamento dos passos.
A última postura da sequência coincide com o ponto de partida, simbolizando o retorno à origem. O círculo está ligado à continuidade: os movimentos são encadeados, sem interrupção. O princípio de um movimento é o fim do movimento precedente. (Despeaux, 1981.)
A meditação e o Tai Chi Chuan são técnicas específicas para a obtenção de estados mentais tranquilos, podendo auxiliar na prevenção de doenças.
Os movimentos devem ser realizados com o corpo equilibrado e centralizado. Os autores clássicos afirmam que, se a coluna estiver reta e centralizada, o Qi alcançará o topo da cabeça. Dessa forma, o equilíbrio é mantido e dores nas costas e lesões nos membros podem ser evitadas. (Liu, 1986.)
O Tai Chi Chuan é considerado “a acupuntura em movimento”. Originalmente, praticavam-se 108 movimentos, que poderiam ser reduzidos a 60 como método-síntese. Provavelmente, cada movimento objetiva estimular fisicamente um ponto de acupuntura. Ao dividir 108 por 12 — número de meridianos —, obtém-se nove, o menor número de pontos de algumas funções, como coração e circulação-sexo. Os 60 movimentos-síntese podem ainda ser relacionados aos pontos Shu: cinco pontos Shu multiplicados por 12 funções resultam em 60. (Cordeiro, 1992.)
Chi Kun ou Qi Gong
O Chi Kun deriva da alquimia taoista e foi introduzido em diversas artes marciais e na medicina oriental como prática preventiva e curativa.
A palavra Chi significa sopro vital, ar ou energia. Kun significa exercício ou treinamento. Assim, Chi Kun pode ser entendido como exercício respiratório e energético, ou seja, exercícios que estimulam a estrutura energética. Com essa prática, desenvolvem-se os centros, os canais — Jing Luo — e o campo energético.
Existem dois tipos básicos de Chi Kun, com finalidades distintas:
- Chi Kun para arte marcial: baseia-se no fortalecimento muscular e ósseo e no desenvolvimento da concentração. Tem como objetivo o combate, desestabilizando a força e a energia do adversário. Essas práticas nem sempre são benéficas ao corpo humano;
- Chi Kun terapêutico: tem a função de equilibrar corpo, mente e emoção. Distúrbios físicos e pressões emocionais ou mentais podem causar congestionamentos energéticos. O Chi Kun busca prevenir e tratar esses desequilíbrios.
Existem duas técnicas básicas na prática do Chi Kun:
- Tu-na Chi Kun: exercícios respiratórios sem grande preocupação com os canais de energia. Atua sobre os sistemas respiratório e digestivo, por meio da expulsão e absorção do ar. Trabalha principalmente com os movimentos do diafragma e a dilatação muscular do abdome, em conjunto com a respiração. Tem como efeito oxigenar, energizar e purificar o corpo, além de estimular a capacidade respiratória e digestiva;
- Tao In Chi Kun: exercícios voltados à manutenção, purificação e desbloqueio das energias nos canais de Chi. Normalmente, não exige a manipulação de grandes quantidades de ar durante a respiração. Em geral, a condução do Chi é feita por meio de foco mental, massagem e leves percussões em partes do corpo. Ambas as formas — Tu-na e Tao In — são utilizadas como práticas de apoio ao Tai Chi Chuan.
“O Qi é como a água: necessita de movimento e não pode ser bloqueado. Qualquer tentativa de restringir o movimento natural de renovação pode trazer desequilíbrio ao corpo e à mente. Por essa razão, o Qi Gong tem o propósito de recuperar a naturalidade do corpo, e não o de construir um corpo artificial.”
— Cheng, 1989.
Dietética
A dietética é uma das especialidades médicas mais antigas da China. Ela classifica os alimentos como Yang ou Yin, segundo sua cor, forma e teor de água. Os taoistas consideravam o regime alimentar muito importante para a manutenção da saúde. (Beau, 1974.)
A energia dos alimentos, ou Kou Chi, é um fator influente no ser humano sob os aspectos energético, físico e psíquico. Assim, por meio da lei Yin-Yang e da teoria dos Cinco Elementos, seria possível intervir nos desequilíbrios de maneira reguladora.
Os cinco sabores e sua correspondência com os órgãos, segundo a doutrina dos Cinco Elementos, constituem o fundamento da dietética chinesa.
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Elemento |
Órgão/Víscera |
Sabor |
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Madeira |
Fígado / Vesícula Biliar |
Ácido |
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Fogo |
Coração / Intestino Delgado / Triplo Aquecedor / Circulação-Sexo |
Amargo |
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Metal |
Pulmão / Intestino Grosso |
Picante |
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Terra |
Baço-Pâncreas / Estômago |
Doce |
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Água |
Rim / Bexiga |
Salgado |
Em geral, o sabor correspondente ao órgão tonifica quando há insuficiência da função. Se o órgão estiver em excesso, esse sabor poderá agravar o quadro e também afetar o órgão dominado, segundo o ciclo de destruição — Ko. (Faubert e Crepon, 1990.)
Quando uma função está em excesso, os alimentos correspondentes ao órgão dominado no ciclo Ko teriam efeitos reguladores:
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Órgão |
Sabor tonificante |
Sabor sedante |
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Fígado / Vesícula Biliar |
Ácido |
Doce |
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Coração / Intestino Delgado |
Amargo |
Picante |
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Baço-Pâncreas / Estômago |
Doce |
Salgado |
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Pulmão / Intestino Grosso |
Picante |
Ácido |
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Rim / Bexiga |
Salgado |
Amargo |
A menos que haja uma doença grave, não se deve suprimir completamente o sabor correspondente a um órgão. Um regime equilibrado é aquele que garante uma parcela de cada sabor.
Segundo o So Ouenn — capítulo V —, o sabor dos alimentos é Yin, e a energia é Yang. Alimentos de sabor forte são Yin; o sabor menos forte é Yin dentro do Yang. A energia forte é Yang; a energia menos forte é Yang dentro do Yin. (Faubert e Crepon, 1990.)
O sabor picante, relacionado aos pulmões, e o sabor doce, relacionado ao baço, elevam-se e se transformam em Yang. São, portanto, Yin de Yang. O sabor ácido, ligado ao fígado, e o amargo, ligado ao coração, descem e vão para o Yin. São, portanto, Yin de Yin.
O salgado é símbolo da nutrição Yang e pode ser decomposto em dois sabores: amargo, portanto Yin, e picante, portanto Yang.
Excessos de Yin são corrigidos pelo acréscimo de Yang, e excessos de Yang são corrigidos pelo acréscimo de Yin.(Faubert e Crepon.)
A Farmacopeia
A farmacopeia chinesa tradicional repousa no trabalho de Li Che-tchen, que dedicou 30 anos de sua vida a esse estudo. A República Popular da China rendeu-lhe homenagem excepcional em 1956, imprimindo um selo postal com sua efígie.
Seu Compêndio Geral da Matéria Médica compreende 56 capítulos, dos quais um é dedicado ao índice dos remédios e três às ilustrações, em número de 1.100. Cerca de 12 mil receitas e fórmulas estão registradas na obra, muitas recolhidas ao longo de suas andanças pelo Império.
São especialmente estudadas 1.074 substâncias vegetais, 443 animais e 354 minerais, além de materiais extraídos de tratados semelhantes.
As prescrições levam em conta a preponderância do Yin e do Yang e, por meio da ação de cada produto sobre os meridianos, a circulação da energia em relação às estações.
Os chineses acreditavam que a natureza procurava chamar a atenção dos homens para os venenos e os remédios que ela pode proporcionar.
Medicamentos de origem vegetal
Acônito; alcaçuz; artemísia; cana-de-açúcar; cânave; cânhamo indiano; efedrina; faveira; funcho; gengibre; hera; ginseng; lótus; menta; peônia; rabanete; rícino; romazeira; ruibarbo; taraxaco; verbena; violeta; volúbil, entre outros.
Medicamentos de origem mineral
Arsênico; bórax; calomelado; cinabre; enxofre; ferro; iodo; pérolas e pedras preciosas, entre outros.
Medicamentos de origem animal
Asno; boi; cigarra; ganso; morcego; lombriga; porco; sapo; serpente; tigre; veado, entre outros.
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